Esses dias uma amiga me deixou antever uma angústia, uma luta interior. Para mim, tudo o que dizia tinha a ver com as expectativas que o mundo tinha a respeito dela. Precisava não fracassar. Aceitava, sem dúvida, um determinado modo de vida como sucesso, o contrário disso seria derrota. Entendia que precisava conquistar algumas coisas, ter realizações.
Não dei conselhos: ela não me pedia àquele instante. Sem dizer a ela mas retomando o assunto, eu diria agora que esse vazio é interior e não pode ser preenchido por uma coisa exterior, seja a glória, um automóvel ou um bom emprego. Obviamente que o mundo é a fonte de onde brotam os critérios de sucesso e fracasso.
A forma de convivemos com essas coisas é não pensar nelas, é nos determos nas novidades que brotam a todo instante: elas nos divertem e nos ajudam a não pensar em nós mesmos. Nos enganamos mas isso pode dar uma sensação de conforto.
Mas aquelas coisas construídas na nossa história, escondidas ou reconhecidas, sentimos com um sentido interior que não é audição, visão, fato, olfato ou paladar e corroem boa parte dos nossos momentos sozinhos e não podem ser extraídos chegando a constituir uma angústia. Essa angústia não é pelo que temos e sim pelo vazio, pelo que não temos, pelo nada que sentimos. As marcas que formam isso não podem ser retirados porque são essas coisas que nos faz ser como somos hoje, preocupados com isso e desejosos de nos livrar disso que nos tornou assim. Nos livrar não nos livramos, porque não podemos eliminar nossa história, podemos tentar fingir que não houve.
Uma verruga ou um sinal de carne incômodos podem ser tirados dessa parte de carne que carregamos e que apelidamos de corpo, mas as marcas da alma fazem parte de nós muito mais que uma úlcera ou aquele medo de baratas. Na verdade aquelas coisas interiores são quase sempre bem antigas, só que esquecidas. Abandonadas pela consciência, continuam a exercer sua influência e determinar nossas escolhas, nos guiar para os nossos erros e acertos.
Ora, dirá a minha amiga, de qualquer forma sempre erramos ou acertamos, então essa nossa história que determina nossas vidas no final não muda nada. Bem, eu concordo que sempre acertamos e erramos. A grande diferença está no fato de que essa força tremenda é quase sempre completamente desconhecida, forte e perigosa porque é desconsiderada. Ao agirmos, decidirmos, escolhemos sem saber que somos determinados por aquilo que ‘resolvemos’ esquecer, não reconhecemos nossos erros e corremos o risco de repetir eterna e inconscientemente os mesmos equívocos.
Um caminho seria ter consciência da própria história, por mais complicada e dolorosa que seja, e compreender nossas escolhas como o resultado do que fomos. Isso que fomos influencia o que somos e aquilo que pretendemos ser.
Por esse caminho continuaríamos errando, mas poderíamos ser conscientes dos erros e tentar melhorar.
Orsely Azevedo
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