A nossa chamada ciência moderna não é uma atividade autônoma. Por mais óbvio que possa parecer, é importante dizer que a ciência não pensa, já que ela não existe independente da vida de cada um daqueles que fazem ela acontecer. Ela é realizada por seres humanos tanto quando é utilizada na fabricação de coisas (produtos) como quando realiza atividades especializadas (serviços). Dentre as coisas produzidas pela ciência estão os celulares, dentre os serviços a educação enquanto atividade dos professores.
Ao elaborar uma nova equação matemática que permite uma melhoria das telecomunicações, o cientista possivelmente colabora para o desenvolvimento de equipamentos de telefonia. O cientista não tem um interesse maior que esse: permitir maior e mais útil produção. Ora, antes de ser cientista quem faz ciência é uma pessoa, com interesses pessoais. Ele não é um representante dos interesses de uma religião, uma cooperativa ou uma confraria chamada ciência. Aquele que faz ciência tem uma vida, pode ter filhos e esposa. Certamente tem interesses pessoais, uma forma própria de compreender a religião, uma interpretação da vida política, às vezes gosta de futebol. Ele, enfim, pensa nos filhos e em outros produtos diferentes dos celulares que sua família precisa. Essas outras coisas que ele tem interesse em comprar também são planejados e fabricados por cientistas e técnicos como ele.
Repito, a ciência não tem uma alma, não tem uma intenção, não tem um interpretação ou uma finalidade para o mundo, porque se ela tivesse isso, teria também uma personalidade. Intenção, finalidade e capacidade de interpretar são características humanas e a ciência não é humana, por mais que seja realizada por humanos. Na prática, a ciência produz coisas a partir da contribuição, em parte isolada e competitiva, de cientistas que agem como jogadores disputando novas descobertas. As novas descobertas, que sejam úteis e vendáveis, são o que realmente se disputa. A fama, o dinheiro, necessidades materiais e outras coisas é que movem os cientistas. Portanto, na prática eles não planejam as suas ações pensando no bem coletivo. Para aquele que trabalha com ciência (mas também é gente), sua vida é o mais importante.
Em mundo em que as coisas, os produtos e serviços, viraram negócios, cuidar da vida é cuidar de ter coisas à disposição. O meio para se adquirir essas coisas é o dinheiro. As pessoas buscam juntas (já que moram em cidade, trabalham em empresas), e quase sempre competindo, ter mais e mais coisas. Esse é, na prática, o que tem resultado do nosso espírito científico.
Ora, para quem vive na sua estressante e até angustiante vida cotidiana em que impera o espírito científico, a ética é uma coisa complicada e até sem sentido.
Então, esse espírito científico parece poder atingir a prática daqueles que dedicam a sua vida à educação. Isso porque essas pessoas também têm a sua vida diária em quase todos os aspectos marcada pela ciência. Como consequência, educação parece que hoje tem mais a ver com aprender ciência do que com aprender a ser uma pessoa de valores éticos. É mais importante fazer mil coisas e bem específicas (vivemos em um mundo de especialistas) do que ter a capacidade de avaliar, refletir, aceitar em parte ou recusar alguma coisa oferecida como verdadeira e boa pela ciência. Parar para pensar sobre o que se tornou o mundo em que vivemos pode significar uma imensa perda de tempo, perda de competitividade. Precisamos estar alertas para não sermos ultrapassados por outros que, como nós, se dedicam a viver e conquistar mais coisas. A única coisa que pode e tem sido esquecida é a vida. Viver não é mais importante.
Importante pensar que a educação é anterior à ciência. A data de nascimento da ciência não é tão antiga quanto o nascimento da educação. Vamos eliminar a ciência então, certo? Errado. Não se está aqui lutando contra a ciência, mas a favor do ser humano. É preciso que a ciência seja capaz de ter um freio. O freio, o limite, é o ponto em que ela começa a, disfarçadamente, eliminar o que há de mais humano em nós. A educação é aquele processo a partir do qual podemos lapidar a nossa capacidade de fazer escolhas autênticas, podemos permitir ir tão longe quanto a nossa capacidade de sermos humanos nos permite.
Orsely Azevedo